Certezas.

Manhã, 6 Junho de 2013, 7:00.

Cinzenta, escura, melancólica, saio de um estado meio letárgico, certo da certeza da indefinição do meu dia. Tudo, quase tudo, algo. É tudo o que peço. Algo diferente para hoje… Levanto-me, sentindo o meu corpo, aos poucos, a sair do torpor primaveril quase que impulsionado por uma força invisível que me leva a lembrar as manhãs de um passado feliz. Feliz pelo objectivo de me levantar com um propósito, tal como máquina movida a vapor, movida pela necessidade de realizar uma qualquer função. Lembro-me, como se fosse hoje, do dia. Sei-o de cor. As cores, o som, as sensações… Lembro-me de fazer a barba. Da face esquerda e da direita, de baixo para cima, em movimentos certos e fugazes. Apenas mais um dia, no meio de outros, a meio da semana, com metade feita e metade ainda por fazer… Sinto uma ardência, um calor ruboresceste, aliviado pelo after shave com cheiro pronunciado a mentol e aloé vera. Perfeito! Lembro-me como se fosse hoje. Do metro, das pessoas. Do senhor sentado à minha esquerda no banco esburacado, velho e desgastado pelo uso, a ler sobre os ombros de outro, os detalhes de um jornal regional. A senhora que entra, rápida, ofegante, com um ar despachado, com telemóvel na mão, uma mancha na camisa, a fazer lembrar as de uma prole irreverente. Saia, camisa clássica, ar despachado a fazer lembrar alguém que conheci. Antes. Depois. É confuso. Lembro-me de tirar uma fotografia e pensar no balanço do branco. Em fazer aquele curso que sempre quis. Cheguei. Um papel na minha secretária. Amarelo, letras grandes. Cheira-me a café. Quente, acabado de fazer. “Passe no meu escritório”. Lembro-me de entrar no gabinete dele e de pensar na decoração da sala. Lembro-me de pensar que talvez precisasse de algo mais. Uma planta talvez. Tudo mudou naquele dia. A presença dele, austera, forte, dissuasora de qualquer conversa mais pessoal. Look impecável, camisa com botões de punho, gravata de cor única. Vermelha. Como manda a empresa. Lembro-me. Da curiosidade, do querer saber, do motivo. E tudo caiu. O corte, as pessoas, a produtividade… Numa bruma de nevoeiro, oiço as palavras, anestesiado por completo. Sou eu, é a minha vida. Está na hora de arrumar as minhas coisas. O tempo piorou, começou a chover, lembro-me como se fosse hoje, mas não me lembro de mais nada. Não me lembro de chegar, não me lembro de partir, como se o meu dia tivesse ficado refém daquele momento. Passaram seis meses. Estou pronto. Sei que hoje será o dia. Levanto-me com a força de querer mais. De querer mostrar o bom que sou e o melhor que sei. É hoje. Estou pronto. O emprego é meu.

Categories: Escrita criativa

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